Era uma vez… a história do Francisco o empreendedor
- Abril 01, 2026
- por
- Patrícia Teixeira de Abreu
Querida Francisca,
Não nos conhecemos e provavelmente nunca nos vamos conhecer, mas soube da tua história através da tua mãe e senti que tinha de te escrever. Porque eu também sou disléxico, e porque há coisas que eu precisava de ouvir aos teus quinze anos, e que ninguém me disse.
Tive uma infância muito feliz, mas ao mesmo tempo, guardei coisas que nunca contei a ninguém. A minha mãe fez tudo o que estava ao seu alcance, desde terapia ocupacional, psicólogos, explicações, apoios de todo o tipo. Ela nunca desistiu de mim, tal como a tua mãe não desiste de ti.
Fui reconhecido como disléxico na escola, fazia testes adaptados, mas mesmo isso era muito duro, lembro-me perfeitamente de fazer os testes sozinho, com apenas mais um colega que tinha síndrome de down, numa sala à parte.
Lembro-me dos olhares dos meus colegas, de me sentir completamente diferente, de um modo que doía (…)
Francisca, eu sei que é isso que estás a sentir agora, que só queres ser normal, que o percurso tem sido muito duro, e eu não vou fingir que não foi, mas vai mudar.
Quero contar-te o outro lado desta história, que um dia irás também tu contar com orgulho.
A dislexia não é só dificuldade, também vem com forças que a maior parte das pessoas nunca vai ter (…)
Quando chegares à universidade, vais perceber isso, porque a tua maturidade já será outra, e irás levar outras ferramentas que te irei explicar de seguida.
Vais aprender mais depressa do que muitos dos teus colegas, não vais decorar, vais perceber a fundo e levar para a vida o que te foi ensinado, ao contrário da maioria que esquece passado uns anos.
O segredo que ninguém me ensinou, e que eu demorei demasiado tempo a descobrir é perceber o que te motiva a aprender e como como aprendes melhor, onde é que a dislexia te afeta mais, para poderes contorná-la. A dislexia nunca desaparece, mas aprendes a jogar com ela, e a conhecer o teu jogo.
Eu entrei tarde para a universidade, tive medos e vergonha que me bloquearam durante muito tempo.
Fui incentivado pela minha namorada e pela minha família, mas o medo era enorme, e quando lá cheguei, já me conhecia suficientemente bem para saber onde precisava de me apoiar e onde poderia voar.
Fiz cadeiras em que tirei vinte, tive bolsa de mérito no meu mestrado. Já tive várias empresas, cargos de liderança, sou formador, dou aulas, e convivo todos os dias com a minha dislexia, sei onde me afeta e como a contornar.
Neste momento estás a aprender algo que os teus colegas só vão aprender muito mais tarde, que o mundo é exigente, que a vida pede adaptação constante e que ninguém nos vai dar facilidades. Estás a aprender isso agora, em tenra idade, isso vai dar-te uma capacidade de resiliência que a maior parte das pessoas nunca vai ter.
O que eu te peço é só isto, não te definas pelo que os outros pensam de ti, o que os outros pensam é a realidade deles, não é a tua. Não cries barreiras mentais, não te limites, descobre as tuas forças e explora-as o mais cedo que puderes.
E dá graças por teres a mãe que tens ao teu lado, quando fores mais velha, vais perceber exatamente o quanto isso lhe custou, e para onde te levou.
Não nos conhecemos, provavelmente nunca nos vamos conhecer, mas torço por ti, sei que és capaz, tal como eu fui.
Com carinho,
Francisco


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