Abaixo a palavra “preguiça” na dislexia!

Abaixo a palavra “preguiça” na dislexia!

Há palavras que todos devemos evitar nós sabemos, mas por vezes elas fogem-nos da boca e quando damos por isso…

Quando converso com os pais, confesso que há uma palavrinha que me aflige, preguiçoso. Ele até consegue, mas é tão preguiçoso; é só querer trabalhar mais…
Há tanto aqui escondido, como camadas de cebola que não querem ser separadas.
Preguiçoso, que ou quem tem preguiça, mandrião…

Mas o que é isto de ter preguiça? O dicionário ajuda (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa), mas não torna a palavra feliz, propensão para não trabalhar, gostar de estar na cama ou levantar tarde, demora ou lentidão agir.

Já todos sentem a mesma aflição? Que palavra dura e castradora.
Se eu não sei ler, se a leitura não em dá gozo, não digas que sou preguiçoso pois não pego num livro.
Se eu dou erros ortográficos sem fim, não digas que sou preguiçoso pois não escrevo mais vezes.
Se a minha letra é feia (eu sei que é feia), não me digas que sou preguiçoso quando as minhas letras são chamadas de gatafunhos e o meu pulso já doi.”

Agora reparem eu não digo para não dizerem nada, eu só peço que não usem esta palavra.
Ter vontade de fazer as coisas, envolve muito mais do que saber que tenho dificuldade e mesmo assim, saber o que tenho de fazer e/ou trabalhar mais para melhorar.
Ter vontade de fazer as coisas e saber que vou falhar mil vezes até conseguir, envolve maturação cerebral, tolerância ao erro, tolerância à frustração. Envolve gerir emoções.

Não ser preguiçoso também envolve ser um pouco crescido, ter capacidade para conseguir entender o que me é pedido, estar totalmente motivado para o resultado final.
Quando lhes pedem para não serem uma coisa que eles não são, é pedir que eles tenham todas as competências, todas as habilidades que referi anteriormente, mas que ainda não estão totalmente desenvolvidas.

Este conjunto de habilidades que permitem que o nosso comportamento seja direcionado para realizar tarefas com/e desde o princípio, meio e fim, em datas e horários certos, saber o que deve ser feito primeiro (desenhos animados ou trabalhos de casa, ou até mesmo fazer a cama ou arrumar a mochila), planificar o dia (cumprir um horário), ajustar se for preciso para que tudo corra melhor, encontrar um solução para um problema, e por outro lado estas mesma habilidades permitem que nós próprios avaliemos o nosso comportamento.

Estas mesmas habilidades, orientam e organizam tal como um gps, a nossa linguagem, a memória, a concentração, o autocontrole, e tudo tem impacto imediato na nossa vida, no nosso dia-a-dia, nas nossas relações e nas nossas atividades.

Mas estas mesmas habilidades nascem com eles, mas não todas ao mesmo tempo. Elas evoluem à medida que eles crescem em centímetros, umas estimulam o desenvolvimento das outras, e com o tempo, treino e muita paciência elas vão ficando cada vez mais automáticas.

Simplificando na teoria, a vida dos pais por deixarem de ter de dizer mil vezes a mesma coisa, não atires o brinquedo ao chão, não mordas, não digas isso, mastiga de boca aberta, segura bem nos talheres, arruma o teu quarto, não me revires os olhos, e por aí vai…

Não se confunda esta falta de desenvolvimento de habilidades com preguiça, não se verbalize esta palavra, olhem que eles podem acreditar…

Sara Lourenço Gomes

Terapeuta da Fala. Durante a minha licenciatura em terapia da fala percebi que afinal todas as dificuldades que tinha sentido na aprendizagem escolar tinham um nome. Talvez por isso seja tão estimulante e gratificante trabalhar e acompanhar o crescimento destas crianças no dia a dia.

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