Passar pelo intervalo dos pingos da chuva

Passar pelo intervalo dos pingos da chuva

Falamos sempre da importância de estar atento às pequenas dificuldades ainda no pré-escolar. Sem nunca querer assustar, mas pedindo a todos os intervenientes no desenvolvimento da criança para que estejam atentos.

Mas o que acontece na grande maioria das vezes, em crianças com queixas mais ligeiras, ou por vezes nem isso, é que só quando a complexidade dos exercícios se torna maior é que a dificuldade fica evidente para todos nós. Embora a criança já saiba que não aprende como o seu melhor amigo ou companheiro de carteira.

Deixa de conseguir camuflar a dificuldade, de passar no intervalo por entre os pingos da chuva e tudo fica explícito. Mas ainda sem diagnóstico e pior do que tudo isso, sem intervenção e apoio concreto estruturado.

Aí todos se molham e a tempestade começa.

Os erros ortográficos são significativos, a leitura é mais lenta, mas lê. Começamos a identificar problemas também na matemática, as questões de interpretação são tarefa impossível e parece que deixam de compreender o que foi lido.

Surge a dúvida, consegue entender questões orais, mas quando escritas não lhe fazem sentido. Por vezes as notas de língua portuguesa não são assim tão más, mas problemas de matemática fazem chorar até o S. Pedro.

Deixou de conseguir fazer? Não se está a esforçar? Simplesmente deixou de conseguir compensar sozinho.

E por muito que possa enervar os pais, explicar cinco vezes da mesma maneira não ajuda, e o “é assim porque sempre foi assim” também não.

O tempo que demoram a ler, aumenta a dificuldade de reter informação. As dificuldades nas questões de interpretação tornam-se evidentes pois os tipos de textos mudam. As respostas deixam de estar explicitas no texto, é necessário fazer reflexão do que se leu, fazer inferências.

Como não são crianças que tenham gosto pela leitura, o seu vocabulário é menor, logo não têm uma rápida capacidade para a subtileza dos textos. Não conseguem entender que quando dizemos no exercício de matemática que a Joana tem mais 3 rebuçados, que a conta pode não ser de adição.

A informação deixou de ser direta e é necessário ajudar a criança a refletir, a descobrir o detalhe da informação.

Nós adultos achamos sempre que cada disciplina é uma disciplina e não conseguimos ver a interligação da aprendizagem. Matemática é também linguagem e o estudo do meio a junção dos dois mundos. Esquecemo-nos que existem regras de leitura, mas que também existem regras de escrita. Não são as mesmas e têm de ser ensinadas.

Crescem demasiado para passar no intervalo dos pingos da chuva, necessitamos de voltar atrás e reforçar as bases da aprendizagem, mesmo que isso implique voltar a ensinar o alfabeto, o método de leitura, as regras de leitura e as regras de ortográficas, o valor do vocabulário bem como valor do número e de ordens de grandeza. Esquecendo o ano letivo em que estão, mas intervindo onde realmente é necessário.

O caminho faz-se caminhando, com boas bases, e só aí ficamos preparados para a chuva de informação que é no fundo a nossa vida.

Sara Lourenço Gomes

Terapeuta da Fala. Durante a minha licenciatura em terapia da fala percebi que afinal todas as dificuldades que tinha sentido na aprendizagem escolar tinham um nome. Talvez por isso seja tão estimulante e gratificante trabalhar e acompanhar o crescimento destas crianças no dia a dia.

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