Ditados – aprender a seleccionar batalhas…

Ditados – aprender a seleccionar batalhas…

Era uma vez uma miúda chamada Francisca que escrevia com muitos erros, e apesar do treino e do esforço enorme, o resultado era péssimo. Com o cansaço os “bês” transformavam-se em “dês” os “pês” em “qês” e por aí adiante. O resultado dos ditados acabava com qualquer auto estima de leão (quanto mais com a auto estima da Francisca ainda tão frágil e que era construída com tanto esforço).

Os primeiros ditados tinham uma média de 23 a 25 erros ( mesmo após termos treinado em casa vezes sem fim). Olhávamos as duas para aquilo com uma vontade de chorar horrível. Houve uma fase em que lhe disse: “Vamos desistir dos ditados, não quero saber quantos erros tens”. Nem ela nem eu estávamos preparadas, tínhamos tantas batalhas, que não íamos desperdiçar toda a energia nos ditados.

O tempo foi passando e voltámos a tentar. Várias vezes, de várias formas e falhámos over and over again, mas aos poucos fomos melhorando a curva de aprendizagem.

Depois comecei a pensar que tínhamos de ser mais assertivas. Se aprende por visualização por que não fazermos ditados com puzzles de palavras? Não é que tenha resultado totalmente (baixámos para uma média de 13 a 15 erros), mas pelo menos era divertido e desbloqueou a nossa “raivinha”.

A estratégia que resultou connosco foi recente:
1. A professora avisa que tem ditado na semana seguinte
2. A Francisca lê o texto uma vez,
3. Lê o texto a segunda vez e identifica as palavras que vão dar erro pela certa,
4. Escreve só essas palavras em coluna numa folha e todas seguidas,
5. Nos dias seguintes lê a lista muitas vezes ( colamos na parede da cozinha). Lê para cima e para baixo vezes sem conta,
6. Um dia antes do ditado, brincamos às professoras no quadro. Eu dito e ela escreve. Sem fitas, sem pressão,
7. Resultado do último ditado : 1 erro ! ( 1 verdadeiro + 3 trocas de letras)

Moral da história: Na dislexia não há pressas nem caminhos únicos.Há batalhas, muitas… Não podemos travá-las todas ao mesmo tempo, há que aprender a escolhê-las se quisermos ganhar a guerra.

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

2 Comentários

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    Alexandra Sampaio

    1st Jun 2021 - 17:04

    Adorei!
    Estou a começar a passear pelas páginas virtuais deste blog e sinto-me drawn to.
    Não lido com esta realidade como mãe, mas lido como docente.
    Adorei esta estratégia.
    Adoro a honestidade e aceitação com que lida com a dislexia da Francisca.
    Realmente somos seres únicos e genuínos.
    A dislexia só vem confirmar que os nossos cérebros não adquirem e processam a informação da mesma maneira. Há diversas formas de aprender para múltiplas inteligências, já diz Howard Gardner.
    Claro que se torna um desafio quando esbarramos num sistema de ensino que advoga o eterno “one size fits all”.
    Vou estar atenta.
    Grata por partilhar o seu dia a dia com a dislexia.
    Torna-me mais consciente dos desafios que também ocorrem do lado de fora de uma sala de aula.

      Patrícia Teixeira de Abreu

      Patrícia Teixeira de Abreu

      5th Jun 2021 - 15:34

      Olá Alexandra,
      Que bom ler o seu comentário.
      É muito bom sentir os professores tão sensibilizados para o tema, porque sem dúvida que são os adultos marcantes destas crianças na escola. Aproveito para partilhar um projecto que vai ser desenvolvido nas escolas na semana da dislexia(10 de outubro). Gostava muito de contar com a sua escola. A inscrição pode ser feita no link abaixo, onde tem também a explicação do projecto.
      https://dislexiadaybyday.com/day-by-day/projecto-escolas-a-dislexia-em-banda-desenhada-para-criancas/
      Um beijinho Patrícia

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