Terapia Virtual & Ferramentas de apoio

Terapia Virtual & Ferramentas de apoio

Como fazer resultar o trabalho virtual?

Por um lado, assustou-me pensar que os meninos iam ficar sem terapia por tempo
incerto, mas a ideia de ter de trabalhar por plataforma virtual também me parecia
demasiado estranha.

Como é que se consegue fazer o que se fazia? Não se consegue.

A terapia reinventa-se, o feedback tátil é substituído por outra estratégia, um feedback
visual ou auditivo, o que a imaginação permitir no momento.
Quando iniciamos um processo terapêutico, a descoberta do outro é mútua, a empatia
vai surgindo, e por muito que as regras sejam as da/o Terapeuta, a dinâmica da sessão
é um jogo a dois.
No entanto há pequenas coisas que temos de tentar replicar. Coisas simples que fazem
a diferença, e que dão um resultado não só na terapia, mas para as restantes aulas
online ou o fazer os trabalhos de casa, em pandemia ou não.

O ambiente de trabalho é fundamental, e calma que não vamos fazer uma renovação
na casa, pois trabalho já nós temos.
Base fundamental nesta etapa é estar numa divisão com boa receção de rede. Não há
nada mais stressante do que a ligação estar sempre a cair, e o entrar e sair da
plataforma. Confirmar a percentagem de bateria, colunas e microfone, se tudo estiver
ok seguimos em frente.
A divisão da casa não deve ser o quarto da criança. O seu quarto é o seu reino, o seu
domínio e o domínio dos seus brinquedos e jogos. Pais ninguém consegue ser mais
interessante do que o nosso local de eleição, jogos, bonecos… Atenção se o local de
divertimento da criança for outra divisão, se o quarto for o ideal, então criamos a
estrutura de trabalho no quarto. Identificar um local neutro de distrações é a base.
Televisão desligada, telemóvel a mesma coisa! Redes sociais a apitar enquanto
tentamos ler ou escrever é tão bom como teletrabalho com obras no vizinho de cima!
Silêncio é a base. Eu sei que a tarefa é árdua, que não estamos sozinhos em casa, nem
no prédio, mas a diminuição de ruído de fundo é importante, e o ruído de fundo é
diferente para todos nós, o silêncio não precisa ser comparável a um templo de
meditação, mas tentemos que a terapia/aulas não coincidam com a aula de dança ou
de música de outro irmão.
Postura. Não, não vamos entrar por regras de etiqueta, mas postura é fundamental no
processo de leitura ou de escrita. Cadeira que permita estabilidade (vamos evitar as
cadeiras de escritório, vulgo cadeira de rodinhas, que permitem uma dança
interminável), altura da secretária e luz adequadas. Ler com sombra é um estímulo à
confusão das letras.

É importante não deixar tudo no digital, fazer exercícios no papel continua a ser
essencial. Assim como o ler!
Por outro lado, podemos neste momento utilizar as extensões de alfabeto desenhadas
para disléxicos que fazem a demarcação das letras, tornando a leitura online mais
simples. Podem obter em https://opendyslexic.org/.

Atenção, esta ferramenta pode ser muito útil para uma ajuda, mas nunca em
substituição total. Queremos que as nossas crianças estejam preparadas para o dia a
dia, e nós sabemos que o dia a dia não se adapta às nossas necessidades.
No, entretanto, vamos nós converter os nossos textos a textos mais colaborantes para
os disléxicos.

Primeiro de tudo, a escolha do tipo de letra é fundamental, letras que em espelho são
iguais não servem para nós (esta é a base da maioria das trocas), vamos escolher
carateres simples de designação sans-serif (sem delineações no final das letras), como
Calibri, Arial, Verdana, Comic Sans, Tahoma, e Open Sans. Tamanho do caratér no
mínimo o 12. Maior espaçamento entre letras e entre palavras, entre parágrafos
usemos o 1.5 de espaçamento. Evitar itálico e sublinhado ou rasurado, e apenas usar
negrito em palavras esporádicas que necessitemos mesmo de realçar.

Títulos devem ser assinalados em tamanhos maiores do que o corpo do texto.

Partilhem estas informações com os professores dos vossos filhos, acreditem que vão
ajudar o professor, e por sua vez simplificar a vossa vida.

Os textos devem ser curtos, ou intercalados com alguma informação visual. Claro que
disléxicos já em fase terapêutica mais avançada não necessitam deste tipo de apoio.
Palavras novas devem de ser acompanhadas de dicionário, a ajuda dos pais é
fundamental.

Sou a favor de textos impressos apenas a preto sem cores de fundo, gosto da
estratégia de deixar a própria criança colorir o fonema com a cor que para ele
escolheu. Marcar as silabas, a palavra, tudo o que a criança automatize como
estratégia.

Terapia, ensino, ou qualquer atividade à distância não significa envio de trabalhos, mas
sim manter atividades, digitais ou não, transmissão de conhecimento e partilha.
Os terapeutas criam metas de trabalho, objetivos, elaboram sessões, escolhem os
jogos ou as fichas de trabalho, os textos, para cada sessão.

A apresentação está alterada, não vamos apenas digitalizar material físico, nem
somente trabalhar sobre aplicações, vamos interagir, apresentar conteúdos, entender
a reação/receção do mesmo e criar métodos, novos claro.

A cumplicidade entre terapeuta e criança por estes dias não desaparece, enriquece-se
com a partilha com os pais. Envolvemos os pais nos nossos jogos, textos, emoções,
partilhamos as nossas descobertas e as nossas estratégias, caminhamos juntos neste
novo dia a dia, nesta nova normalidade, sempre com a destreza de um disléxico a
solucionar o Mundo.

Sara Lourenço Gomes

Terapeuta da Fala. Durante a minha licenciatura em terapia da fala percebi que afinal todas as dificuldades que tinha sentido na aprendizagem escolar tinham um nome. Talvez por isso seja tão estimulante e gratificante trabalhar e acompanhar o crescimento destas crianças no dia a dia.

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