Silêncios

Silêncios

É engraçado que eu acho que desenvolvi com a Francisca uma conexão tão forte, que podemos estar as duas em silêncio que sabemos perfeitamente o que cada uma de nós está a sentir.

Foram as manas que editaram o vídeo da entrevista da Isabel Stilwell, sim porque eu percebo zero disso e sinceramente acho que a utilidade marginal (eu sou economista,há conceitos que ficam para sempre!) de aprender a fazer isso é baixíssima, razão pela qual prefiro deixar nas mãos de quem sabe.

Depois de editada a entrevista a Francisca sentou-se na sala a ver. Em silêncio. E as manas falavam disto e daquilo e ela não tirava os olhos do telefone. Eu estava deitada no sofá a ler, e ia olhando para ela. Em silêncio. Disfarçou as lágrimas com uma comichão nos olhos. Mas eu percebi perfeitamente que se identificou profundamente com o que a Isabel dizia. Abracei-a, e também em silêncio pensei que passaram várias gerações desde o tempo em que a Isabel fez a primária, como é que é possível que nós enquanto sociedade não tenhamos conseguido fazer com que estes miúdos se sintam sempre acolhidos, compreendidos e integrados?

Aquele silêncio foi mais uma certeza que cada um de nós tem um papel fundamental como “Dyslexia Influencer”. É verdade que é um trabalho tão, mas tão grande que a consciência de que não mudamos o mundo, nos faz suspirar, desanimar e desejar que como por magia as coisas mudem. Não vão mudar. Quando tenho vontade de desistir (porque às vezes tenho) penso que se dermos um passo em frente todos os dias, ao final do ano estamos 365 passos mais perto do objectivo.

Normalmente, para mim os silêncios representam distância ou algo do qual eu desisti. Mas com as minhas filhas, e principalmente com a Francisca, há silêncios bons, silêncios de entendimento e conexão. São silêncios que valem mais que mil palavras e que me ensinam que se é verdade que não posso mudar o mundo, também é verdade que cada pessoa que conseguimos sensibilizar para a dislexia, é um passo em frente para a inclusão.

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

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