Quando o medo estraga tudo…

Quando o medo estraga tudo…

Estou a fazer uma formação na empresa que tem alguns conceitos de neurociência. É uma certificação internacional em agile coaching, ou seja ensina-nos a ajudar equipas a trabalhar melhor.

Achei que aqueles conceitos seriam totalmente aplicáveis à dislexia. E expliquei à Francisca assim, antes do teste de português:

– Sabes que no cérebro temos uma bolinha do tamanho de uma ervilha que nos salva a vida todos os dias. Chama-se amígdala. Quando a amígdala pressente algum perigo acorda e obriga-te a reagir de 3 maneiras: fugir, lutar ou congelar/ bloquear. Imagina que pões a mão numa panela quente, automaticamente tiras a mão (fugir), se alguém vier a correr e te bater, no mínimo defendes-te (lutar) e quando ficas cheia de medo de um barulho no escuro da noite , ficas a tremer sem te mexeres ( congelar/bloquear ). Em qualquer uma destas situações nem tens tempo para pensar. É automático.
– Sim mãe, e o quê que isso tem a ver com o teste de português?
– Na aprendizagem e nos testes nunca podes acordar essa ervilha.
– Quando é que se acorda a ervilha?
– Com o medo.
– Mas…quando?
– Quando ficas com medo de não conseguires responder na escola, quando ficas nervosa, quando tens medo da reação da professora ou medo do teste.
– O quê que acontece?
– A amígdala acorda de repente e luta, foge ou congela. E não a consegues controlar.
– E então o quê que eu faço com uma amígdala à solta?
– Respiras. Respiras profundamente. Sabes porquê?
– Não mãe!
– Porque quando a amígdala acorda o nosso corpo fica em alerta e o oxigénio é canalizado para essas funções vitais (que é a defesa do perigo). Ficamos muito stressados e isso faz com que a nossa cabeça deixe de pensar bem. Imagina que a nossa cabeça é uma sala que recebe visitas. Quando ficamos stressados é como se entrasse porta dentro um furacão que tirasse tudo do sítio. Esse furacão chama-se cortisol. Quando o deixamos entrar temos uma dificuldade imensa em encontrar alguma coisa na sala que dantes estava arrumadinha, percebes?
– Sim mãe… mas e se eu tiver medo?
– Conversa com ele. O medo detesta conversas. E respira profundamente no decorrer da conversa. Diz-lhe que podes demorar mais tempo a aprender, podes não conseguir à primeira, podes ter notas menos boas que os amigos, mas está tudo bem. Vai ficar sempre tudo bem. Sentes um abraço bem apertado da mãe e recomeças com uma amígdala já bem adormecida.
– Ai mãe, tu e os teus cursos. Vou ver se não me esqueço. Sabes que eu e a minha memória de peixinho….

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

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