Era uma vez… a história do Francisco o empreendedor

Era uma vez… a história do Francisco o empreendedor

Querida Francisca,

Não nos conhecemos e provavelmente nunca nos vamos conhecer, mas soube da tua história através da tua mãe e senti que tinha de te escrever. Porque eu também sou disléxico, e porque há coisas que eu precisava de ouvir aos teus quinze anos, e que ninguém me disse.

Tive uma infância muito feliz, mas ao mesmo tempo, guardei coisas que nunca contei a ninguém. A minha mãe fez tudo o que estava ao seu alcance, desde terapia ocupacional, psicólogos, explicações, apoios de todo o tipo. Ela nunca desistiu de mim, tal como a tua mãe não desiste de ti.

Fui reconhecido como disléxico na escola, fazia testes adaptados, mas mesmo isso era muito duro, lembro-me perfeitamente de fazer os testes sozinho, com apenas mais um colega que tinha síndrome de down, numa sala à parte.

Lembro-me dos olhares dos meus colegas, de me sentir completamente diferente, de um modo que doía (…)

Francisca, eu sei que é isso que estás a sentir agora, que só queres ser normal, que o percurso tem sido muito duro, e eu não vou fingir que não foi, mas vai mudar.

Quero contar-te o outro lado desta história, que um dia irás também tu contar com orgulho.

A dislexia não é só dificuldade, também vem com forças que a maior parte das pessoas nunca vai ter (…)

Quando chegares à universidade, vais perceber isso, porque a tua maturidade já será outra, e irás levar outras ferramentas que te irei explicar de seguida. 

Vais aprender mais depressa do que muitos dos teus colegas, não vais decorar, vais perceber a fundo e levar para a vida o que te foi ensinado, ao contrário da maioria que esquece passado uns anos.

O segredo que ninguém me ensinou, e que eu demorei demasiado tempo a descobrir é perceber o que te motiva a aprender e como como aprendes melhor, onde é que a dislexia te afeta mais, para poderes contorná-la. A dislexia nunca desaparece, mas aprendes a jogar com ela, e a conhecer o teu jogo.

Eu entrei tarde para a universidade, tive medos e vergonha que me bloquearam durante muito tempo. 

Fui incentivado pela minha namorada e pela minha família, mas o medo era enorme, e quando lá cheguei, já me conhecia suficientemente bem para saber onde precisava de me apoiar e onde poderia voar. 

Fiz cadeiras em que tirei vinte, tive bolsa de mérito no meu mestrado. Já tive várias empresas, cargos de liderança, sou formador, dou aulas, e convivo todos os dias com a minha dislexia, sei onde me afeta e como a contornar. 

Neste momento estás a aprender algo que os teus colegas só vão aprender muito mais tarde, que o mundo é exigente, que a vida pede adaptação constante e que ninguém nos vai dar facilidades. Estás a aprender isso agora, em tenra idade, isso vai dar-te uma capacidade de resiliência que a maior parte das pessoas nunca vai ter.

O que eu te peço é só isto, não te definas pelo que os outros pensam de ti, o que os outros pensam é a realidade deles, não é a tua. Não cries barreiras mentais, não te limites, descobre as tuas forças e explora-as o mais cedo que puderes. 

E dá graças por teres a mãe que tens ao teu lado, quando fores mais velha, vais perceber exatamente o quanto isso lhe custou, e para onde te levou.

Não nos conhecemos, provavelmente nunca nos vamos conhecer, mas torço por ti, sei que és capaz, tal como eu fui.

Com carinho,

Francisco

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

Deixe o seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados *

Sobre

About Me
Determinada, entusiasta e enérgica gosto de sentir que crio valor. Desafios que envolvam comunicação, liderança e criatividade são para mim! Gosto do frio da barriga de novos começos. A monotonia aborrece-me e a paciência não é propriamente o meu forte...

Continuar a ler

Dislexia dia a dia

Contactos

Instagram

×