Da série “Nós e o verbo confinar”

Da série “Nós e o verbo confinar”

Eu confino
Tu refilas
Ela irrita-se
Nós confinamos
Vós confinais
Elas passam-se…

Este confinamento está-me a custar muito mais do que o primeiro.Tem a parte boa das escolas não terem fechado, mas tem também todo o trabalho adicional que ficou desde que este vírus nos virou a vida de pernas para o ar. Inclui “Mãe serviço uber”,”Mãe serviço refeições a toda a hora”, “Mãe sempre à mão de semear”, “Mãe fada do lar”, “Mãe goodbye ajudas”,”Mãe teletrabalho”, “Mãe, mãe, mãe…”. Um enjoo portanto.

-Ah e tal vais falar de futilidades?
-Vou.Vou porque me fazem falta as futilidades e a liberdade. Andamos todos meio cinzentos, entediados e afogados em trabalho. Fechados no mesmo espaço que antes era a nossa “Home sweet Home” e que agora parece uma prisão que já nem podemos ver à frente.Vemos as mesmas (poucas) pessoas todos os dias (que são a nossa família) passamos horas no Teams entre reuniões numa falsa sensação que é tudo muito prático. Sim, prático é, mas é fundamentalmente esgotante.

Temos noção que temos de cuidar da nossa saúde mental. Assistimos a workshops sobre o tema, com estratégias e dicas. Mas cansa. Na verdade já não temos pachorra para ouvir mais ninguém.

Férias? Imensos dias para gozar. Férias para ficar em casa? Não obrigada. Garantidamente que o serviço “uber” de três aumentaria exponencialmente, e os trabalhos domésticos em atraso pesar-me-iam na consciência.

Ler? Não dá. Há sempre alguém a querer qualquer coisa, e a sensação que devíamos estar a trabalhar (é uma ideia irracional totalmente provocada por nós próprios e de uma auto exigência absurda) .O computador está em todo o lado mas felizmente já tivemos a inteligência de desligar o “ping” dos e-mails e silenciar os 350 grupos de whats App.

Juntamos a terapia ao final do dia. Os testes, o horrível Meio Físico (ou Estudo do Meio) que exige um esforço gigante para que a Francisca memorize alguma coisa. De facto, devo estar tão cansada que chega um abraço bem apertado com um decidido “ Mãe eu vou ter atitude!” que é basicamente um “ Aguenta-te mãe que eu preciso de ti”.

E de repente voltamos a ter a energia carregada e falamos animadamente dos nómadas e dos Fenícios e Cartagineses (odeio isto) em histórias que inventamos cheias de acção sobre esses povos altamente desinteressantes. Mas há que tornar esta matéria mais divertida para garantir que todos os dias aprende no mínimo uma página.

À noite antes de dormirmos “ Mãe,vamos alvinar?”. Alvinar é o nosso programa preferido – pegamos no tablet e vemos um episódio do Alvin os Esquilos, que acaba invariavelmente comigo a adormecer a meio.

É um luxo podermos fazer o que nos apetece e em silêncio. E nesta altura isso não é propriamente fácil nem possível. Com todos os cansaços, desesperos e irritações destes confinamentos, um simples almoço com a vista espectacular da fotografia faz a semana. Keep it simple!

PS- Continuo a não perceber as teorias de que isto dos confinamentos é tempo de qualidade com os nossos filhos. Juro que não percebo.

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

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