Desligar

Desligar

Como mãe de uma família monoparental, uma vida profissional intensa e uma filha disléxica sinto muitas vezes a necessidade de desligar. Carregar no off. Sabe-me bem estar um dia sem tomar 50.000 decisões. Não tenho muitos fins de semana sem crianças, mas quando tenho é à séria. Nos meses em que isso não acontece tenho sempre reservado só para mim algum tempo ao fim de semana, para fazer só é exclusivamente o que me apetece.

E porquê que estou a escrever sobre isto?
Porque a vida é muito mais que a dislexia da Francisca, e ela precisa de uma mãe leve, que tenha os seus hobbies, e os seus momentos “without kids”, para depois a ajudar em pleno na terapia diária. Quando estou fora, o que faço é delegar nas irmãs o trabalho diário. É normalmente pouco tempo, elas ajudam e a Francisca colabora. Isto porque percebem que é importante para mim e que vou voltar nova. Ajudar os nossos filhos não tem de ser uma prisão ou condicionar a nossa vida toda. Antes pelo contrário temos que integrar o trabalho diário de forma natural na nossa vida e ganhar flexibilidade.

Há uns meses, antes do COVID-19, foi assim! Cheguei nova e cheia de energia. Deixei colado na parede em frente ao lugar do pequeno almoço a matéria de estudo do meio esquematizada: animais vertebrados e invertebrados, vivíparos, ovíparos, omnívoros,herbívoros,classes de animais, plantas e etc. São nomes difíceis de decorar e escrever,por isso uma das técnicas que eu uso é a visualização recorrente das palavras. Pedi-lhe também que desenhasse os animais em frente das palavras – é divertido e ajuda a memorizar.

Estava cheia de fé que era desta que chegávamos ao “Bom” a Estudo do Meio, mas o COVID trocou-nos as voltas. Mesmo assim 4 meses depois ainda se lembra da matéria e nunca mais se esqueceu que aquela raiz que parece uma “despenteada mental” é que é a fasciculada, e que a “penteadinha” é a aprumada.  Entretanto, o mesmo  COVID ensinou-me a desligar mesmo com elas. Nada se perde, tudo se transforma!

 

Patrícia Teixeira de Abreu

Vivo a vida com intensidade e acredito que a dislexia pode ser uma oportunidade única de crescimento para uma família de miúdas com garra.

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